“Cristiano Araújo morreu.”
“Quem?”
“Um cantor sertanejo.”
“Ah tá.”

cristiano araújo
As pessoas normais reagem exatamente assim quando um famoso não conhecido por elas morre. Foi assim quando Dercy Gonçalves morreu, quando Chico Anísio morreu, quando José Wilker morreu e quando Michael Jackson morreu.
Ninguém é obrigado a gostar de todos os estilos de música, nem assistir TV e nem conhecer todo mundo que passa pelos programas de variedade. Somos todos diferentes e devemos respeitar essas diferenças.
99% dos meus amigos desconheciam a voz e a cara do sujeito que faleceu tragicamente na última semana e muitos amigos dos meus amigos também não o conheciam. Então como um grande “desconhecido” tomou grande parte da programação midiática no dia de sua morte? O questionamento de pessoas como eu era sobre a obsessão da mídia, não sobre a fama do sertanejo.
Quem é fã, convive com outros fãs e frequenta lugares onde esse estilo de música é exaltado acha que o resto do mundo também deveria pelo menos conhecer uma música, mas caríssimos, não é assim que a coisa funciona.
A diferença entre Cristiano Araújo, Cazuza, Cássia Eller, Mamonas Assasianas, Lady Di, Michael Jackson, João Paulo e Leandro é gritante. O jovem era talentoso, era conhecido no meio, tinha um ótimo futuro pela frente, mas não era um fenômeno unânime como os demais citados.
Isso não desmerece a morte dele. Falar que ele não era famoso não é ofender. Reclamar da mídia falando o tempo todo da morte dele não é criticar os fãs.
Fãs, aceitem de uma vez que ele era ídolo de vocês. Só de vocês.
Minha mãe (totalmente alheia ao cenário musical em geral) não conhecia músicas de Cazuza, nem Cássia Eller e nem Mamonas Assassinas, mas ela sabia quem eles eram e quando eles morreram ela soube que já tinha ouvido aqueles nomes em algum lugar antes. Com Cristiano Araújo eu me senti vivendo em um universo paralelo.
A inquietação do resto da sociedade sobre a cobertura massiva da morte do jovem me fez refletir sobre o papel da mídia nesse acontecimento. As pessoas estavam questionando a fama do cantor ou o assédio da imprensa?
Será que se ao invés de ficarem dando notícias a todo instante sobre o velório e mostrando o sofrimento da família dos amigos eles tivessem feito uma matéria só, mas mostrando a trajetória do rapaz e uma homenagem de outros cantores do meio, os comentários seriam diferentes?
O que incomodou as pessoas foi mesmo um “desconhecido” ter tantos fãs ou foi a forma mórbida e doentia dos programas explorando a imagem de uma família arrasada pela dor? (Não irei nem entrar no mérito dos vídeos e imagens que foram divulgadas pelos celulares filmados na clínica e funerária porque, na minha opinião, essa situação é ainda mais asquerosa).
As pessoas comuns estavam criticando os fãs ou a forma como tudo foi noticiado?
O que “vende” nos meios de comunicação é violência, catástrofe e futebol, mas qual o limite disso? Até quanto as pessoas estão dispostas a pagar por esse conteúdo? Será que esse padrão de “mercadoria” ainda pode ser utilizado?
Acredito que estamos em um processo de mudança na forma de consumir informação e os meios de comunicação tradicionais ainda não estão sabendo lidar com isso, até que o novo destino da mídia tradicional seja traçado acho que muitos outros embates desse tipo acontecerão. Só espero que no final o saldo seja de mais empatia e menos rancor.