Ela vivia na periferia com sua família. Passava os dias nas ruas, mas não tinha amigos. As crianças da idade dela não gostavam dos seus pensamentos. A menina era uma sonhadora, dizia que cresceria, seria importante e teria uma vida nova, cheia de regalias e coisas que só o dinheiro (que ela não tinha) poderiam comprar.
Quando ela começava a falar dos seus sonhos todos riam e a chamavam de tola. Os adultos riam da inocência e diziam que ela nunca iria longe, as crianças a chamavam de metida por sonhar tanto.
Aquelas palavras e zombações a deixavam furiosa por dentro e o único pensamento que alimentava era que um dia ela iria provar a todos que eles estavam enganados, que ela realizaria todos os seus sonhos materiais e chegaria mais longe que algum deles chegaria.
Com o tempo ela passou a odiar aquelas pessoas pobres de espírito que não se esforçavam e aceitavam o que a vida lhes dava. “Posso ter mais, posso ser mais que isso” era o que a menina pensava quando acordava e levava esse pensamento consigo até a hora em que pegava no sono. E nesse pensamento ela encontrava força para lutar e dar o melhor de si na busca do conhecimento.
Conforme ia crescendo a menina foi percebendo o tamanho do mundo e quanto mais via, mais ela queria. Passou a invejar pessoas. Sentia-se mal porque os outros tinham o que ela mais ansiava e eles não haviam feito nada demais para conseguir aquelas coisas.
Ódio e inveja consumiam a menina por dentro e esses sentimentos aumentavam na mesma proporção que a menina se desenvolvia.
O ódio e a inveja passaram a ser o combustível da menina.
Ela odiava tanto as pessoas da periferia que não queria ser nada parecida com elas. Não queria ter aquela mentalidade pequena, sem sonhos. E além disso, ela queria a todo custo provar que os sonhos podem se tornar realidade e que ela conseguiria alcançar os seus.
Esse ódio dava a ela a força que ela precisava para encarar os desafios da vida. Cada vez que uma pedra aparecia em seu caminho ela se lembrava do ódio e isso a erguia para continuar na caminhada sem desistir.
Aliado a esse ódio, ela tinha a inveja. E como a inveja lhe era útil. Ela traçava seus objetivos por causa da inveja.
Ela planejou seu caminho e traçou seus objetivos, tudo isso baseado na inveja. Ela queria o mesmo que outras pessoas e teria aquelas coisas e faria aquelas viagens.
Fez seu plano de vida com base unicamente na inveja e persistiu na execução dele buscando força no ódio.
E assim viveu, lutou, cresceu.
Saiu da periferia e foi morar na parte nobre da cidade, na cobertura do apartamento mais luxuoso que existia. Conseguiu atingir seu objetivo: tinha tudo que o dinheiro poderia comprar. Provou a si mesma que estava certa: “querer é poder”.
Agora só restava uma coisa: provar aos outros que eles estavam errados. E assim saiu, chamou o motorista e pediu que o levasse à periferia.
Poucos a reconheceram quando ela chegou. Os velhos conhecidos continuavam ali. Crianças que cresceram com ela continuavam na miséria mesmo depois de adultos, pois tinham medo de sonhar.
Não a invejavam, pois achavam aquilo feio, era um sentimento vil, mas ela via nos olhos daquelas pessoas que eles se sentiam envergonhados por terem duvidado dos sonhos de uma criança.
Então o velho padeiro curioso com toda riqueza da menina perguntou o que ela fez para alcançar seu sonho. A resposta foi inesperada, porém sincera:
“Eu senti mais ódio do que pensei que poderia sentir. Odiava a periferia, odiava ouvir que eu não chegaria a lugar nenhum, que a estrada da vida era complicada. Odiava ver as pessoas duvidando dos meus sonhos. No início eu sentia vergonha desse sentimento, mas era ele que me dava força para continuar lutando pelos meus sonhos. Se não fosse pelo ódio eu ainda estaria aqui, mas eu o usei a meu favor, transformei todo o sentimento ruim em força para continuar a caminhada. E quando eu achava que não podia mais continuar eu tinha a inveja do meu lado. A inveja de ter as coisas que eu sempre quis e que meus pais nunca me deram. Se eu nunca tivesse invejado essas coisas eu ainda estaria aqui, mas também a usei a meu favor, transformei a inveja em meta para os meus planos.
Sempre ouvi dizer que o ódio e a inveja eram sentimentos ruins e deveríamos ter vergonha desses sentimentos, mas eu aprendi a usar esses sentimentos de forma a não prejudicar ninguém e a me fortalecer. Acho que não existem sentimentos bons ou maus, o que faz com que eles sejam positivos ou negativos é a forma como os usamos.”