Cara Misterioso
Ele era motoqueiro. Calado e com pinta de bad boy.
Nunca soube seu nome, mas gostava daquele jeito misterioso. Ele me fazia rir nas poucas vezes que conversamos.
Ele era gentil, não com todo mundo, mas com quem merecia. Ajudava senhoras a atravessar a rua e carregava suas sacolas da feira. Respeitava idosos e beijava as mãos das mulheres. Parecia ser um cara educado.
Ele gostava dos animais. Acariciava e conversava com cachorros de rua (achei que só eu fazia este tipo de coisa). Eu ria disso e viajava em pensamentos quando ele falava que os bichos eram criaturas de Deus e que por isso foram salvos do dilúvio.
Ele tinha um ar sério e ao mesmo tempo sereno quando encostava no muro e apoiava uma pé na parede para fumar. Sempre a perna esquerda dobrada e o cigarro na mão esquerda. Era assim que eu o via a maior parte do tempo.
Em nossa última conversa ele estava mais sério que o normal e me disse a frase profética “você vai morrer. E, se você for para o inferno, eu estarei lá. Procure por um cara calado, em pé no canto fumando um cigarrinho. Serei eu.”
Eu achei graça e ri. Ele só reafirmou “eu estarei lá”.
Não nos falamos mais. Da última vez que o vi ele estava exatamente em um canto do muro, com a perna esquerda dobrada e o cigarro na mão direita. Tragava lentamente, segurava a fumaça por pouco segundos e a soltava devagar. Ele parecia estar longe em pensamentos. Ao lado dele dois homens estavam discutindo. Ele apenas observava de canto de olho, com a expressão serena. O homem mais exaltado foi forçado a se sentar na mesa do bar pelos amigos. Ele estava próximo, mas não disse nenhuma palavra, deu mais uma tragada no cigarro e o ofereceu ao homem.
Esperei ansiosamente para reencontra-lo no dia seguinte, mas ele não apareceu. Nem no dia após aquele, nem na semana seguinte. Então eu soube: só verei o cara misterioso novamente se eu for uma menina má. Ele estará em um cantinho do inferno fumando um cigarrinho. E conversaremos sobre como os cães merecem o céu.

Imagem: Free Refe