1904
Querido Diário,
Há muito não escrevo, mas não tenho mais a quem contar minha angústia. Meu coração dói só de pensar na minha triste sina.
O Tomé confessou que me ama e eu também o amo, mas quando o meu pai nos viu conversando hoje me trancou no quarto e não me deixa sair nem para fazer as refeições.
Minha mãe nada faz para me ajudar, ela aceita tudo o que meu pai diz sem discutir. Eu sei que ela se casou com ele sem o amar, mas isso foi no século passado, agora deveria ser diferente. Nem escravos temos mais.
Escravos… É por isso que não posso falar com o Tomé. Ele é filho de ex-escravos. Mesmo não sendo negro minha família não quer nos ver juntos.
Não fizemos nada a não ser conversar, mas só por ele ser pobre e filhos de ex-escravos eu não posso nem falar com ele.
Agora tenho que ficar aqui, presa no meu quarto. Meu pai diz que só sairei do quarto para me casar com o Osvaldo de Lins. Não quero me casar com ele! Ele é grosso, não sabe como tratar uma dama e só fica contando vantagens sobre suas terras. Ouvi meu pai dizendo que ele ainda tinha escravos escondidos em uma fazenda do interior.
Não quero dividir a casa, ou pior ainda: a cama, com alguém que ainda tem escravos! Não posso nem pensar nessa possibilidade. Espero que aconteça algum milagre que faça meu pai mudar de ideia.
Mas do jeito que meu peito dói, tenho certeza de que brevemente morrerei de amor!
Amo tanto o Tomé que só de imaginar minha vida longe dele eu quero morrer. Não me importa se ele não pode me dar sedas ou jóias, ele me trata bem e me ama, isso é o bastante para ficarmos juntos.
Quem dera se eu pudesse fugir de casa para ficar com o meu amor, mas não sei do que meu pai seria capaz de fazer se ele descobrisse. Por enquanto fico aqui vivendo esse tormento e rezando por dias melhores.

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