O que é liberdade?

Desafio Q&A de abril: O que é liberdade?

Liberdade
Entre a puberdade e o início da vida adulta percebi que existem vários tipos de liberdade. Apesar de que na maioria das vezes ele se resume em liberdade econômica e liberdade de ir e vir.
Muitos adolescentes querem ter seu próprio dinheiro e muitos pais fazem os filhos acreditarem que eles serão livres quando tiverem o próprio dinheiro e eu nunca acreditei nisto.
Eu sempre fui “mão de vaca” e guardava todo troquinho que eu conseguia. Aos 10 anos eu comprei meu primeiro cd player com o dinheiro que ganhava de presente.
Com 15 anos abri minha primeira conta bancária e tive meu primeiro cartão de crédito. Nunca ganhei mesada, minha mãe me dava o dinheiro da passagem e o do lanche para escola e um pouco mais para emergências. Quando eu saía era mais ou menos a mesma coisa. Se eu ia ao cinema, por exemplo, era o dinheiro do cinema, do lanche, da passagem e o para emergências.
O que eu conseguia economizar ia para o meu cofre e ficava guardado. A esse dinheiro eu juntava o que eu conseguia fazer por esforço próprio. Gravar CD para as amigas, vender doces, fazer layouts, tricotar… Em 2004 eu consegui juntar o suficiente para viajar e ficar uma semana fora de casa (não fiz a viagem, mas a quantia eu juntei).
Eu tinha a liberdade econômica que meus amigos não tinham, por outro lado eu não tinha a liberdade de ir e vir.
Por morar longe e ser filha única minha mãe não me deixava sair muito. Demorei muito para começar a andar sozinha de ônibus. Não fui a nenhuma festa de 15 anos. Minhas amigas que minha mãe conhecia a família e me deixaria ir não fizeram festa e eu não pude ir na dos outros colegas por ser longe e essas coisas.
Depois que inventaram o celular e eu fiz 18 anos isso melhorou muito. Saía, ligava e estava ok. O auge deste nível de independência foi comprar ingressos e passagens para shows em outros estados e só depois avisar minha mãe que iria.
Não moro sozinha, mas já quis para poder sair e voltar quando quisesse sem precisar dar satisfação a ninguém ou ter meu canto com minhas coisas sem ninguém mexendo (quem nunca?). Mas fico pensando se eu seria livre mesmo assim. E acho que a resposta seria não.
Liberdade não é algo pleno. Ninguém é totalmente livre. Podemos ser livres para algumas coisas e para outras não. Acho que sempre teremos algo que controle nossa liberdade.
E isso não é ruim. Imagine se todo mundo saísse por aí fazendo o que bem dá na telha sem que nada acontecesse em consequência?
É aquilo de meu direito termina quando começa o do outro. Eu sou livre para ser o que eu quiser, desde que não prejudique ninguém com minha liberdade.
E liberdade para vocês? O que é?

desafioQ-A-polypop

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O caixão sozinho

O caixão sozinho
Chegou o carro da funerária com o caixão. Ele viajou muitos quilômetros, apenas o caixão e o motorista. Ninguém foi chorando junto ao corpo.
Ninguém se importou em velar o corpo. Ninguém chorou pelo corpo.
Ao chegar ao destino ninguém estava esperando pelo corpo.
No cemitério ninguém estava na capela.
Curiosos passavam e paravam para ver o corpo sozinho. Nos outros velórios havia familiares e amigos chorando pelo ente querido, mas ali não. Apenas o caixão sozinho.
Antes do caixão ser fechado não tinha ninguém para fazer uma oração. Não tinha flores para o corpo. Ninguém chorava pelo corpo, ninguém estava de luto.
As pessoas ao redor sentiam-se estranhas, quem era aquele corpo? Por que ninguém se importava? O que ela teria sido? Foi uma pessoa boa? Foi uma pessoa má? Vivia sozinha? Tinha família? Trabalhou? Teve amigos? Aproveitou a vida? Trabalhou? Estudou? Conheceu lugares incríveis? Viveu grandes aventuras? O que ela gostava de fazer? Como faleceu? Estava doente? Foi um mal súbito? Sofreu um acidente? Alguém a viu dando o último suspiro? Quem foi a última pessoa que falou com ela? Qual teria sido sua última refeição?
Ninguém saberia, o corpo frio no caixão não poderia responder àquelas perguntas e não havia ninguém ali para respondê-las.
O caixão foi fechado e levado pelo coveiro. Na cova fria ninguém deu o último adeus. Ninguém colocou uma flor em cima do caixão, ninguém viu a primeira pá de terra a ser jogada. Ninguém derramou a última lágrima.
O caixão chegou sozinho, foi velado sozinho e foi sepultado sozinho. Só o caixão e as pessoas da funerária. Nenhuma daquelas pessoas conhecia aquele corpo, só estavam fazendo o trabalho deles.
Agora não fazia diferença. O caixão estava novamente sozinho, mas embaixo da terra. Sozinho e esquecido. Aquela pessoa não existia mais, não poderia mais fazer diferença no mundo. O corpo em breve seria consumido e nada mais restaria. Nem a madeira do caixão, nem o corpo, nem a pessoa.
Sem deixar lembranças, sem deixar saudades, apenas mais um número para contabilizar dados estatísticos, que em breve também não teria relevância.

Texto fictício para se refletir sobre a brevidade da vida e em como podemos ser melhores. O que queremos para o futuro? O que estamos plantando? Com quem estamos nos relacionando? Como está nossa convivência social? O que podemos melhorar? Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Poderia ser aquele aluno misterioso da escola, sem amigos e com um péssimo relacionamento com os pais. Aquele homem ambicioso que achava que o dinheiro comprava tudo e não mantinha nenhum relacionamento verdadeiro. Aquela mulher traída, deprimida, que se ausentou do mundo para chorar sua dor por anos e anos e deixou todos se afastarem. O viciado que saiu de casa e foi enterrado como indigente. A criança órfã de pai de mãe que vivia em um abrigo e ninguém teve tempo de fazer a última oração.
Muitas situações, uma única indagação: “por quê?”

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A morte de Cristiano Araújo e a morbidez midiática

“Cristiano Araújo morreu.”
“Quem?”
“Um cantor sertanejo.”
“Ah tá.”

cristiano araújo
As pessoas normais reagem exatamente assim quando um famoso não conhecido por elas morre. Foi assim quando Dercy Gonçalves morreu, quando Chico Anísio morreu, quando José Wilker morreu e quando Michael Jackson morreu.
Ninguém é obrigado a gostar de todos os estilos de música, nem assistir TV e nem conhecer todo mundo que passa pelos programas de variedade. Somos todos diferentes e devemos respeitar essas diferenças.
99% dos meus amigos desconheciam a voz e a cara do sujeito que faleceu tragicamente na última semana e muitos amigos dos meus amigos também não o conheciam. Então como um grande “desconhecido” tomou grande parte da programação midiática no dia de sua morte? O questionamento de pessoas como eu era sobre a obsessão da mídia, não sobre a fama do sertanejo.
Quem é fã, convive com outros fãs e frequenta lugares onde esse estilo de música é exaltado acha que o resto do mundo também deveria pelo menos conhecer uma música, mas caríssimos, não é assim que a coisa funciona.
A diferença entre Cristiano Araújo, Cazuza, Cássia Eller, Mamonas Assasianas, Lady Di, Michael Jackson, João Paulo e Leandro é gritante. O jovem era talentoso, era conhecido no meio, tinha um ótimo futuro pela frente, mas não era um fenômeno unânime como os demais citados.
Isso não desmerece a morte dele. Falar que ele não era famoso não é ofender. Reclamar da mídia falando o tempo todo da morte dele não é criticar os fãs.
Fãs, aceitem de uma vez que ele era ídolo de vocês. Só de vocês.
Minha mãe (totalmente alheia ao cenário musical em geral) não conhecia músicas de Cazuza, nem Cássia Eller e nem Mamonas Assassinas, mas ela sabia quem eles eram e quando eles morreram ela soube que já tinha ouvido aqueles nomes em algum lugar antes. Com Cristiano Araújo eu me senti vivendo em um universo paralelo.
A inquietação do resto da sociedade sobre a cobertura massiva da morte do jovem me fez refletir sobre o papel da mídia nesse acontecimento. As pessoas estavam questionando a fama do cantor ou o assédio da imprensa?
Será que se ao invés de ficarem dando notícias a todo instante sobre o velório e mostrando o sofrimento da família dos amigos eles tivessem feito uma matéria só, mas mostrando a trajetória do rapaz e uma homenagem de outros cantores do meio, os comentários seriam diferentes?
O que incomodou as pessoas foi mesmo um “desconhecido” ter tantos fãs ou foi a forma mórbida e doentia dos programas explorando a imagem de uma família arrasada pela dor? (Não irei nem entrar no mérito dos vídeos e imagens que foram divulgadas pelos celulares filmados na clínica e funerária porque, na minha opinião, essa situação é ainda mais asquerosa).
As pessoas comuns estavam criticando os fãs ou a forma como tudo foi noticiado?
O que “vende” nos meios de comunicação é violência, catástrofe e futebol, mas qual o limite disso? Até quanto as pessoas estão dispostas a pagar por esse conteúdo? Será que esse padrão de “mercadoria” ainda pode ser utilizado?
Acredito que estamos em um processo de mudança na forma de consumir informação e os meios de comunicação tradicionais ainda não estão sabendo lidar com isso, até que o novo destino da mídia tradicional seja traçado acho que muitos outros embates desse tipo acontecerão. Só espero que no final o saldo seja de mais empatia e menos rancor.

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